Checagem de mito

O enxaguante mata os micróbios que sua pressão precisa

Falso. Um enxaguante antisséptico não separa micróbio nocivo de útil, então achata a comunidade da sua boca. Num ensaio de 2013, sete dias de enxágue com clorexidina cortaram em 90 % o nitrito da boca — o que o corpo usa para relaxar os vasos — e subiram a pressão em 2 a 3,5 mmHg. Trata problema, não rotina.

Devo enxaguar todo dia? — uma mulher para no corredor de casa, casaco pela metade, pouco depois das oito

Existe uma lógica arrumadinha por trás do hábito. Bactéria causa cárie. Bactéria causa doença de gengiva. Logo, menos bactéria tem de ser melhor, e um enxaguante que mata quase todas tem de ser o melhor de todos.

Cada passo dessa corrente parece razoável. O último já foi medido, e ele não se sustenta.

Veredicto: falso

Matar mais bactérias da boca nem sempre é melhor. Um enxaguante antisséptico amplo não faz triagem. Ele não consegue distinguir o organismo que corrói o seu esmalte do organismo que vive no fundo da sua língua e transforma o nitrato da comida numa molécula de que as suas artérias se servem. Ele tira os dois — e a segunda perda aparece no seu sangue em um dia 2.

Isso não torna os enxaguantes antissépticos inúteis. Torna-os um tratamento, com indicação, duração e ponto final, em vez de um ritual diário de higiene.

Ilustração: um enxaguante transparente varre um tapete misto de bastonetes, células redondas e fusos, e o deixa ralo atrás da sua borda

O que um antisséptico amplo faz com a comunidade que mora na sua boca

Comece pela medição mais direta. Bescos e colegas, na Scientific Reports, em 2020, fizeram 36 adultos saudáveis enxaguar por um minuto, duas vezes ao dia, durante 7 dias, com um placebo, e depois repetir o mesmíssimo esquema por mais 7 dias com clorexidina a 0,2 % 1.

A comunidade não simplesmente encolheu. Ela pendeu para um lado. Firmicutes e Proteobacteria ficaram mais abundantes, enquanto Bacteroidetes e Fusobacteria caíram 1. E a boca em que essas sobreviventes ficaram era quimicamente diferente: o pH da saliva caiu, a capacidade tampão caiu, e o lactato e a glicose salivares subiram 1.

Leia essa última frase devagar, porque ela inverte a promessa. Uma boca mais ácida, com menos tampão e mais açúcar livre, é exatamente o ambiente para o qual Streptococcus mutans foi construído. Uma semana de antisséptico dirigido às bactérias da cárie deixou para trás a química que agrada a elas.

A pista que você está fechando: como as bactérias da sua língua chegam às suas artérias

As células humanas não conseguem reduzir nitrato a nitrito. As bactérias conseguem. Hyde e colegas rasparam a língua de seis voluntários saudáveis, sequenciaram o que morava ali e identificaram 14 espécies candidatas a redutoras de nitrato — sete delas nunca antes consideradas participantes 6. Esses organismos ficam sobretudo no fundo da língua e entregam ao corpo o nitrito, que vira óxido nítrico, que relaxa os vasos sanguíneos.

Kapil e colegas testaram o que acontece quando essa pista é fechada. Dezenove voluntários saudáveis foram medidos ao longo de um período de controle de 7 dias e depois enxaguaram com um antisséptico à base de clorexidina por 7 dias 2. A produção de nitrito na boca caiu 90 % e o nitrito do plasma, 25 %. A pressão sistólica e a diastólica subiram de 2 a 3,5 mmHg, e o tamanho da subida de cada pessoa acompanhava o tamanho da própria queda de nitrito (r² = 0,56, p = 0,002). O efeito apareceu em um dia depois de a flora ser atrapalhada e se manteve pela semana toda 2.

Dois a três e meio milímetros de mercúrio não são uma crise numa pessoa. Numa população inteira também não são nada — e ninguém saiu de casa para comprar isso num enxaguante.

Ilustração: um enxaguante varre o tapete misto de bactérias da superfície da língua, e o fluxo de partículas que ele manda a um vaso sanguíneo cai a um décimo

Onde a evidência discute consigo mesma

Essa é a parte que costuma ficar de fora, então deixa eu dizer com clareza: o achado é real, e ele não é unânime.

No estudo de Bescos, a pressão sistólica de fato subiu depois da clorexidina, mas a subida não foi estatisticamente significativa 1. E Sundqvist, Lundberg e Weitzberg fizeram um estudo cruzado, randomizado e duplo-cego com 17 mulheres jovens e saudáveis em dieta pobre em nitrato, enxaguando três vezes por dia durante 3 dias: o enxaguante de fato bloqueou a conversão de nitrato em nitrito na boca, e mesmo assim o nitrito do plasma, a taxa metabólica de repouso e a pressão ambulatorial de 24 horas ficaram todos inalterados 3.

Então a via é atrapalhada de forma confiável. Se essa perturbação chega ou não às suas artérias parece depender de quem está enxaguando, por quanto tempo e de quanto nitrato há na comida.

A epidemiologia aponta para o mesmo lado sem provar causa. No San Juan Overweight Adults Longitudinal Study, 945 adultos de 40 a 65 anos foram acompanhados por três anos; quem usava enxaguante de venda livre pelo menos duas vezes ao dia teve uma taxa maior de desenvolver pré-diabetes ou diabetes do que quem não usava, e nenhuma associação apareceu abaixo de duas vezes por dia 4. Isso é uma associação observacional em adultos com sobrepeso. Levanta a pergunta. Não a resolve.

Quando o enxágue é mesmo a ferramenta certa

Agora a outra metade da honestidade, porque uma checagem de mito que corta só para um lado não é checagem de mito. O enxágue antisséptico funciona — naquilo em que funciona.

A revisão Cochrane de James e colegas reuniu 51 estudos e 5345 participantes. Usado como complemento da escovação, o enxaguante com clorexidina produziu uma redução grande da placa dental — diferença média padronizada de 1,45, a partir dos 12 ensaios e 950 participantes analisados em 4 a 6 semanas, com uma redução grande parecida de novo aos seis meses, em evidência de alta qualidade 5. Esse é um efeito genuíno, e é por isso que o enxaguante existe.

A mesma revisão é igualmente clara sobre os limites. O benefício sobre a gengivite foi de 0,21 no Índice Gengival de 0 a 3 em pessoas com inflamação leve — uma mudança que os revisores julgaram não relevante clinicamente 5. E não sai de graça: um grande aumento de manchas extrínsecas nos dentes, diferença média padronizada de 1,07, depois de 4 a 6 semanas, além de alteração do paladar, ardência e dor na mucosa relatadas nos ensaios incluídos 5. Cinquenta dos 51 estudos tinham alto risco de viés 5.

Somando tudo, esse é o perfil de um medicamento de curso curto: depois de cirurgia periodontal, num período em que escovar é fisicamente impossível, quando alguém nomeou o problema e nomeou a data de parar. Não é o perfil de um frasco que você pega toda manhã porque a sua boca está normal.

O que uma boca comum precisa de verdade

Uma boca não é uma ferida, e não é uma bancada de cozinha. É uma superfície colonizada cujos moradores fornecem tamponamento de ácido, pressão competitiva contra os organismos que você não quer e o passo do nitrito que a sua circulação não sabe executar sozinha 6.

A remoção mecânica — escovar e limpar entre os dentes — tira o biofilme do dente sem esterilizar a língua. Essa distinção é o argumento inteiro. O objetivo nunca foi ter menos bactérias. Foi ter as certas, nos lugares certos, na quantidade em que elas cabem.

Fatos principais

  • Em 36 adultos saudáveis, 7 dias de enxágue com clorexidina a 0,2 % deslocaram a comunidade da saliva — mais Firmicutes e Proteobacteria, menos Bacteroidetes e Fusobacteria.1
  • Depois da clorexidina, o pH e a capacidade tampão da saliva caíram, enquanto o lactato e a glicose salivares subiram — a química que favorece as bactérias produtoras de ácido.1
  • Sete dias de enxágue com clorexidina cortaram a produção de nitrito na boca em 90 % e o nitrito do plasma em 25 %; a pressão sistólica e a diastólica subiram de 2 a 3,5 mmHg.2
  • O efeito não é universal — em 17 mulheres jovens e saudáveis que enxaguaram três vezes por dia durante 3 dias, a conversão do nitrato foi bloqueada, mas o nitrito do plasma e a pressão de 24 horas não mudaram.3
  • O enxaguante com clorexidina dá uma redução grande de placa (DMP de 1,45), mas só 0,21 ponto de redução de gengivite no índice de 0 a 3, além de um grande aumento de manchas nos dentes.5
  • Raspados de língua de seis voluntários saudáveis renderam 14 espécies candidatas a redutoras de nitrato, sete delas nunca antes consideradas participantes.6

Perguntas frequentes

Então enxaguante bucal faz mal?

A pergunta está com o formato errado. Um enxaguante antisséptico é um medicamento com indicação. Como complemento da escovação, ele produz uma redução grande da placa dental — evidência de alta qualidade, reunida de 12 ensaios dentro de uma revisão Cochrane de 51 estudos [s5]. Usado todo dia, por anos, sem nenhum problema nomeado, ele atrapalha uma via bacteriana de que a sua circulação se serve [s2]. Mesmo frasco, veredicto diferente, conforme o motivo de ele estar na sua mão.

Enxaguante sobe mesmo a pressão?

Num estudo controlado, sim, e de forma modesta. Dezenove voluntários saudáveis enxaguaram com um antisséptico à base de clorexidina por 7 dias; a pressão sistólica e a diastólica subiram de 2 a 3,5 mmHg, e a subida de cada pessoa acompanhava a queda do próprio nitrito circulante [s2]. Mas um estudo cruzado randomizado com 17 mulheres jovens não achou mudança nenhuma na pressão medida por 24 horas [s3], e num estudo com 36 pessoas a subida não foi estatisticamente significativa [s1]. A via é atrapalhada de forma consistente; o efeito lá na ponta não é consistente.

Isso vale para todo enxaguante?

O mecanismo foi testado com mais rigor com a clorexidina, então é dela que consigo falar com números [s1][s2][s3]. Para os enxaguantes de venda livre a evidência é mais fraca e observacional: em 945 adultos com sobrepeso acompanhados por três anos, usar enxaguante pelo menos duas vezes por dia esteve associado a uma taxa maior de pré-diabetes ou diabetes do que não usar [s4]. Uma associação numa coorte é motivo para fazer a pergunta, não a resposta a ela.

Quando o enxágue antisséptico é mesmo a ferramenta certa?

Quando um profissional nomeou o problema e nomeou a data de parar — depois de cirurgia periodontal, ou num período em que escovar é fisicamente impossível. Esse é o perfil que os dados dos ensaios sustentam: um efeito grande sobre a placa em 4 a 6 semanas, um efeito sobre a gengivite que os revisores julgaram não relevante clinicamente, e um grande aumento de manchas extrínsecas nos dentes como preço [s5].

Se eu parar de enxaguar, as bactérias voltam?

Não consigo te dar um prazo, porque nenhum dos ensaios citados aqui acompanhou a comunidade depois da parada. O que está documentado é a rapidez com que a perda aparece: a pressão se mexeu em um dia depois de a flora da boca ser atrapalhada [s2]. Um número de recuperação exigiria um estudo que medisse a recuperação, e eu não tenho nenhum para te entregar.

Fontes

  1. Bescos R. et al., Scientific Reports, 2020 — doi:10.1038/s41598-020-61912-4
  2. Kapil V. et al., Free Radical Biology & Medicine, 2013 — doi:10.1016/j.freeradbiomed.2012.11.013
  3. Sundqvist M. L., Lundberg J. O. & Weitzberg E., Nitric Oxide, 2016 — doi:10.1016/j.niox.2016.10.003
  4. Joshipura K. J. et al., Nitric Oxide, 2017 — doi:10.1016/j.niox.2017.09.004
  5. James P. et al., Cochrane Database of Systematic Reviews, 2017 — doi:10.1002/14651858.CD008676.pub2
  6. Hyde E. R. et al., PLoS ONE, 2014 — doi:10.1371/journal.pone.0088645

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